15 8 / 2013

Ode ao amor Pacífico

teus olhos estão mais bonitos
que o céu visto de um navio
água doce que me invade
e me transborda
eu, que já nasci filho do meio
ovelha renegada vivendo às margens
encontrei o amor que pensei ser dos outros

argonauta perdido
doente e sem trabalho
sem viola nem rock nem cruz nem espada
findei por te encontrar
dia em que a sorte começou
turmalina que brotou no meu sertão

tem sujeitos que nascem pra curar
e outros nascem para rezar
há sujeitos que nascem para mentir
e há ainda mulheres que nascem para parir
tu, tu és o meu ofício
daqui até onde a vista alcança
você é o fim que justifica meus meios

entre o céu e a terra
existe nós
e entre nós
o nó de carne e alma
fundo feito âncora no oceano
prenda minha, minha paz,
meu amor Pacífico


Jéssica B.

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04 10 / 2012

Na primeira vez que chorei

quando eu cheguei do samba
Tereza não estava me esperando

a comida estava quente e gostosa, como Tereza

se eu tivesse chegado cinco minutos mais cedo,
se eu tivesse pegado o bonde direto pra Consolação
se eu tivesse honrado o que prometi ao pai de Tereza
Tereza ainda me beijaria
como só que tem 15 anos beijaria
atrás da igrejinha
onde é fácil fazer promessas

Tereza, eu não sei rezar
mas hoje eu acredito em Deus e todos os santos
se eles me trouxerem Tereza de volta

Tereza, tu foi embora num domingo
amanhã é segunda
o ITEP tá em greve,
eu não posso nem me matar

Tereza, quem vai colocar as flores no túmulo?
sem tu eu não sirvo nem pra morrer

Tereza acendeu uma vela antes de ir
em luto ao nosso amor
e tudo agora é breu
não tem samba não tem dengo,
nem flamengo, nem coragem

com que cara eu olho no espelho?
com que cara eu olho pro cara que dizia
'Tu não merece a tua mulher, malandro'?

por favor, não dorme com ele,
Tereza, não dorme com mais nenhum homem

eu prometo que largo a sinuca,
o capote o baralho
a esquina e a jogatina
mas sem tu eu nunca mais durmo nesse barraco

por que tu deixou esse vestido aqui, Tereza?

Jéssica B.

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18 5 / 2012

Porque hoje já é sexta e domingo vai ter praia. Porque o amor é para leigos. Porque você é o meu arauto - aquele que diz se vai haver guerra ou paz. Porque hoje eu te beijei no lugar mais empoeirado entre a seção de política e filosofia da livraria. Porque eu não pretendo - nunca - ir dormir com raiva de você. Porque nem Carbono 14 mostraria há quanto tempo essa história estava esperando pra acontecer. Porque hoje eu não fui na cigana por não precisar mais saber onde minha vida se encaixa. Porque eu não quero respostas, nunca quis. Só quis alguém que pudesse bagunçar tudo, junto comigo. Porque tem um gato miando lá fora. E porque eu te amo e te amo e te amo. Como eu andei pela Terra antes disso?

 Jéssica B.

Porque hoje já é sexta e domingo vai ter praia. Porque o amor é para leigos. Porque você é o meu arauto - aquele que diz se vai haver guerra ou paz. Porque hoje eu te beijei no lugar mais empoeirado entre a seção de política e filosofia da livraria. Porque eu não pretendo - nunca - ir dormir com raiva de você. Porque nem Carbono 14 mostraria há quanto tempo essa história estava esperando pra acontecer. Porque hoje eu não fui na cigana por não precisar mais saber onde minha vida se encaixa. Porque eu não quero respostas, nunca quis. Só quis alguém que pudesse bagunçar tudo, junto comigo. Porque tem um gato miando lá fora. E porque eu te amo e te amo e te amo. Como eu andei pela Terra antes disso?


Jéssica B.

16 2 / 2012

É complexo demais pensar nas possibilidades sem pensar primeiro se elas vão deixar intactos os meus sábados e a minha bagunça. Estatisticamente falando, eu tenho 31% de chances de ser feliz nesse país, 18% de trabalhar em algo que me agrade e 97% de mudar de opinião a cada próxima parada que o ônibus fizer. A vida dá mais voltas do quê o Circular e as pessoas talvez não percebam que basta o motorista ter brigado com a esposa, ser um pouco parecido comigo e pronto - tragédia num bairro chamado Liberdade. Irônico. Como se faz pra manter mais de 3 vícios com 20 reais até o final do mês? Sou viciada na salada sem graça do vendedor sem graça que passa todo dia no escritório quase às 4:20. Sou viciada em auto-confiança e em fones de ouvidos que perdi ontem. Sou viciada nesse joguinho nervoso entre as expectativas e o amor próprio. À essa altura do campeonato não se pode mais evitar a fadiga. Se você estiver parado sem estar bolando nenhum plano, a cidade te engole e você vai parar direto no intestino grosso do sistema. Cuide desse tédio pra ele não virar ócio. Deixe as coisas insignificantes onde elas devem estar: Na insignificância. Enquanto você cultiva brotoejas, outros gozam. E eu não estou te provocando, é só um fato. E você adora fatos. É muito amargo ouvir um ‘essa conta é tão fácil que dá até preguiça de se resolver’. Você pra mim é problema SEU, entenda isso. As palavras mais feias do dicionário são ‘previsível’ e ‘egoísta’. Todo mundo que joga sabe que esquiva é muito diferente de covardia. E enquanto isso, numa pasta chamada Minhas Imagens, as imagens não são minhas, mas vão ser. Continua aí, com teu The Doors atravessado na garganta. Deve ser lindo morrer disso. Fecha aspas.

Jéssica B.

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10 1 / 2012

tira-gosto

morder a língua
não conseguir parar o choro de uma criança
errar a letra da música
arranhar gesso com as unhas
esquecer a senha do banco
ver um casal muito piegas
sofrer um choque ao apertar aquela caneta
ouvir um discurso hipócrita
abrir um livro em mais de 120°
ver a sogra sem roupa
bater o carro
se viciar num jogo de azar
não conseguir pular um muro
não conseguir vender tua idéia
ouvir alguém contar o final do filme
acender o cigarro pelo lado errado
ver o peixe do teu aquário morrer
ligar pro traficante e ele não atender
ter alguém que te faça correr demais
os riscos dessa highway
perceber que o travesseiro afunda mais que o normal
com o peso da tua cabeça
ser de sagitário
bater dente no dente
ouvir alguém dizer que te ama


Jéssica B.

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22 12 / 2011

Você, que já na escola aprendeu que subtrair é mais fácil que multiplicar. Você que nunca soube onde começa e acaba a diversão. Você que me causa transtornos tripolares e movimentos involuntários. Foi você que banalizou. E é você que vai continuar bocejando alto, falando pouco e pensando demais. Você que preparou a arma o ano inteiro e na hora não saiu ‘bang bang’, saiu ‘blá blá’. Você que suspeita até do azul do céu e dança qualquer música do mesmo jeito. Você venceu.

E eu fiz o que todo mundo faz: Deixa o gás da cozinha aberto, espera alguma coisa acontecer e enquanto isso procura algo concreto pra escrever sobre uma história que está prestes a explodir. Uma história que só acontece do lado de cá e que não rende mais do quê 14 linhas na tela de um computador HP new generation. O foda disso tudo é que eu te beijei muito pouco.

(Pra você, que como qualquer outro, ama o amor e não a pessoa)

Jéssica B.

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20 12 / 2011

Cold Case

Eu não quero testar sua capacidade de mentir e não quero apenas porque é final de ano e tudo é pretexto pra ter preguiça. Não quero testar minha capacidade de te fazer perguntas e não te desejo sério, espirituoso, profundo, exato. Não vou gostar da beleza pretensiosa das suas frases ambíguas e do seu mistério sub-vinte. Não quero colaborar com seu metabolismo torto e vou desviar meu foco se tiver que observar você sendo auto-suficiente. Não quero tocar no assunto. Não quero sabotar teu discurso. Não preciso de uma arma dentro de casa. Eu quero você aqui, viciando meus hormônios e pulando etapas. Preciso, quero, desejo, espero: Esses verbos egoístas. Vou te deixar ganhar todas as discussões e só te cobro aquele olhar morno, o poder-ter e um pouco de barulho. É tão óbvio, eu gosto muito de você. Mas já faz tanto tempo e já fomos tão sutis, tão exigentes, tão fiéis e fatalistas, que hoje eu só quero que você terceirize minhas emoções. Meu sangue coagula rápido demais.

(por enquanto, vou camuflar as hecatombes de sentimento dizendo apenas que todas de antes, agora e depois são vadias.)

Jéssica B.

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08 11 / 2011

08/11/11

Hoje se um cachorro mordesse meu calcanhar, eu aceitaria indiferente e aérea. Se viesse então um ladrão eu diria que nada vale um susto, que todo mundo tem seus vícios, que Pandora é a culpada. Além do mais, eu estava parada sozinha num semáforo, a pé, de noite, pedindo uma adrenalina.

Dar dinheiro a ciganos é melhor do quê ir a psicólogos assim como malandros são melhores do quê charlatões. Não confio em alguém que talvez entenda sua cabeça e seu valor. Não confio em quem beija de olhos abertos e meu seguro de vida mandou eu me afastar de você. Mais um motivo. Mais um dia com várias mensagens subliminares espalhadas pelos cantos: Game Over.  

Merda, daqui a pouco é Natal.

Jéssica B.

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03 11 / 2011

lua em escorpião

eu plagiei todas as atrações do circo
do domador de feras ao trapezista
perdi a chave, perdi as contas pra pagar
perdi os perdões que me deviam
e perdi a chance de escolher um não
em troca de um sim
me dividi em duas e uma delas dobrou a esquina
jogando a aliança no primeiro bueiro
não há nada de poético em escolher ter pactos
de desvantagens e egoísmos

quando eu falo que sei, que vou, que quero
que preciso, concordo e entendo
alguma coisa bonita morre do outro lado do mundo
no Japão de mim

entenda
eu jurei solenemente nunca mais discar certos números
usar certas palavras e beber da mesma água
mas hoje é quinta, amanhã é sexta
e depois haverá uma segunda
minha sede é meu pretexto
e pretextos nunca acabam

talvez você não entenda
talvez eu não me faça entender
talvez seja tudo proposital
é engraçado que nos desertos faça muito frio à noite
talvez considerando isso haja também uma explicação
pra eu me sentir tão triste quando olho uma linha reta sem você

(eu voltei naquele bueiro e só encontrei a sujeira que já havia por lá)

Jéssica B.

19 10 / 2011

harpia

a alegria é um bem compartilhado. a mesa, o pão, a cama e o vinho são populares. o que a fotografia não mostra é a parte ruim do teu caso. o tic tac do relógio de pulso, a espera atrás da porta, o nublado e o cheiro do nublado - terra molhada de saudade e saliva. fotos ainda não capturam o cheiro das sobras.

tu já vê a semelhança entre um mendigo, um palhaço e um autor de crime passional: todos aprenderam a lidar com a dor mudando a vida por inteiro. calma.mente. tu já se percebe caçando atores pra um filme muito antigo, baseado em mágoas reais. tu já gastou muito dinheiro pra tentar pular a parte insone da noite. e tu já sabia desde o início, mas continua não sabendo pra poder viver.

~

sonhei que a vida era um trem. eu estava em um dos lados do trilho, você no outro e um trem sem fim entre nós, pra sempre. indo pra lugar nenhum.


Jéssica B.

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